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Mostrando postagens de 2009

Poetizar a alma

Claro
Escuro
Neste mundo inoportuno
De olhares infecundos

Claridade
Na alma bate
Em todos os segundos em diante

Sou a vida
No clarão da arte
De sempre escrever assim

Se poeta eu ei de ser
Isso não importa
Porque poetizar a alma
Essa é a coisa que quero poder ser

Nunca me enganei

Na claridade do dia
Faço versos para amar
Quando os termino
O vazio chega já

Nas sombras o peito é aberto
Na penumbra me transformo
Em ser quase completo

Na vida as sombras aparecem
Na face da morte
Encontro eu cá
Vida só interessa
Se há quem amar

Nas lembranças de uma vida
Todas faço já
Na beleza da covardia
Vide alma eterniza

Cabeça, áurea, branco
No limiar do espanto
O céu se abre de encanto
Das mazelas que canto
Nada mais garanto

Nestas longas rimas
De pulsar em prantos
O coração aberto afirma
Não sou poeta dos meus enganos

Versando

Cruz alta
Esplendor alado
Não esqueceis de mim o deus amado

Cada verso que faço a ti
Encontro o meu bem amado
De um dia sempre quereres sempre lembrado

Já disse que não gosto de versos rimados
Mas na vida tudo é assim
Um pouco de cada coisa
E para sempre seja louvado

Rimas rimadas ao vento

Não gosto de rimas
As rimas são manipuladoras
Congelam um instante em que o Eu
Que não é o Eu desabrocha

Rimas inúteis
Porque rimar sol com girassol
Tudo não passa de uma situação modística

Eu escrevo assim
As frases vem e ponho-as no papel
E pronto

São elas que devem bailar por si só
Não tenho intenção de forçar nada
Deixe que elas expressem-se

Rimas rimadas ao vento se vai
Coisificando a vida
A vida não é assim
Ela é dura, objetiva, franca
Rimar rimas, isso não é para mim

Olhares

Olhos longínquos, face desnuda
Aparente flexibilidade modular
Cabeça baixa, músculos distendidos
Organismo ainda vivo

Coração apertado num peito semi-aberto
Sangue e refluxo
Ossos quebrados sem estrutura interna

Mais ainda somente olhares
Olho no olho
Profundidade absoluta
Olhares
Olha-se para si mesmo
Apenas vê-se um Eu inexistente

Primeiras poesias

As poesias que publico abaixo, foram escritas nos anos de 2004 a 2006. Retratam a fase mais difícil, a mais dolorosa, mas nem por isso a menos feliz destes quase 30 anos de existência. Eis a palavra moderna Existir, fazer-se existir, como já disse algumas vezes, estar no mundo, sem ser do mundo, eis a atração do tempo moderno, do próprio tempo.

Confidência

Sombra sombria
Recolho-me na vida
No âmago enaltecido
Encontro exílio

Sonhos inacabados
De tão acinzentados
Cabresto no cavalo
Somos todos seres alados

Com a cabeça erguida
Os olhos cerrados
O coração ferido
E alma clarificada

Na sombra me encontro
Sou um simples trovador
De certeza inalterada
Valhe-me Deus, nosso Senhor!

Duas faces

A morte é apenas o princípio
Cada dia que passa um pouco de nós morre
O nascimento é a morte plasmada
É a revelação da verdade

Pensemos na única certeza
A nossa morte é um fato a ser consumado
Fatos dolorosos são como o cinzel
A prepotência do orgulho aniquilada

Na morte nada parece racional
As emoções são super-expostas
É necessário vivê-las dentro de si

Expor-las para agradecer
Se há morte, há vida
A morte é o renascimento para a vida

Falando de coisas simples

Enxada em mãos
Batida a roçar
Cavuca-se a terra
Ainda não se sabe o que achar

O agricultor na labuta
Intensa sensação a se realizar
Na roça planta-se de tudo um pouco
Feijão, mandioca, até abobrinha

Na arte de trabalhar a terra
Ele de chapéu e enxada
Sol a penetrar na alva pele
Um momento de paz
 A enxada neste momento é seu guia

Voz das Geraes

Quando escuto tua voz
O meu coração abre-se
De dentro vejo tanta luz
Penetra na alma, clareia

Uma voz que mexe e reflete
Afeta os poros sensibilizados
Não há dor, diante dela somente amor
Um amor imenso, cheiro paradisíaco

Voz tão clara como os riachos de Minas
E Minas é teu som
Sonoro prazer é te ouvir
As lágrimas escorrem cachoeira abaixo
Nas pedras batem, lapidam a dureza

Uma alma se sente
Tanta ternura, tanto afeto
Nascente voz, Nascimento
Milton, uma voz, que ama cantando a Humanidade
A sua humana idade de ser cantor
Cantor, eis a Voz das Geraes

Pensamentos poéticos II

Reflexo

Sou reflexo de um tempo
O meu tempo é o Eu
Posso até tentar ser Nós
Mas é o Eu quem determina

Individual

No individualismo dos tempos modernos
Moderno é o ser que dá aos outros
Mas hoje até o dar as vezes é mal visto
No Eu a minha geração contenta em permanecer
É custozo ver os outros

Contos de fada

A Humanidade olha-se no espelho e pergunta:
Espelho, espelho meu...
Até nos contos de fada queremos possuir
A posse acontece porque o outro permitiu
Não sou de ninguém,
Estou no mundo,
Não pertenço a Ele.

Transgressão

Transgressão da poesia
Mas como fazê-la?
Há fórmulas?
Para mim não há

A poesia clássica é uma insossa
Todo poeta é um transgressor da palavra
Uma coisa é certa
Não há como transgredir o próprio Eu

Fogão de lenha

Lenha a queimar
Brasa à avermelhar
Fumaça dissipada no ar
Em poucos instantes apenas cinzas

Viver sempre é assim
Começa em brasas e termina cinza
Pelo menos das cinzas
A vida continua a se alimentar