segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Mulher idealizada

Sentado a beira da praia
Céu intempestivo, mar revolto
Ondas sinestesicas

Na fronte o sol
Bate em minha pele alva
Olhos longíquos se vão

Parece miragem
Vejo um ser reluzente
Com o corpo desnudo pelo vento

Sensações inebriantes invadem-me
Cada dia penso nessa imagem
Ser ideal, fictício ou real

Na realidade encontro-me
Não sei se a encontrarei
Mas da sua pele nunca mais esquecerei

Pequeno amor

Amar é um fato
Viver é um ofício
Casar é um risco

O meu pequeno amor
Uma vez me disse:
O fato de amar é um ofício de viver no risco de casar

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A cruzada

Sacode a areia
O sol caminha sobre minha cabeça
A mulata de belas coxas, cruzam-as
Como cravo, canela e pimenta
E em um instante percebo
Mulher quando quer
Vira o homem do avesso


Esta poesia foi escrita segundo um fato verídico numa praia capixaba.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ao sair da casca

Olha-se para trás
Rostos iluminados são avistados
O caminho a seguir é um mistério
Não se sabe o que se vai encontrar

Um dia resolve-se ir embora
Quanta saudade sentia
Mas olhando para frente
A vida se enche de luz

Em uma estrada ladrilhada penetrei
Ao olhar o chão só via meu olhar
Nele encontrava todos que deixei

A cada passo flores exalavam um cheiro forte
Do centro nasciam borboletas cor prata
Avistei-as de novo e estrelas a brilhar no céu

Acordei do sonho vivido
Uma sensação inebriante penetra no ser
Neste instante percebo algo
Sonhos vividos nunca são só sonhos sonhados

sábado, 31 de outubro de 2009

Poetizar a alma

Claro
Escuro
Neste mundo inoportuno
De olhares infecundos

Claridade
Na alma bate
Em todos os segundos em diante

Sou a vida
No clarão da arte
De sempre escrever assim

Se poeta eu ei de ser
Isso não importa
Porque poetizar a alma
Essa é a coisa que quero poder ser

Nunca me enganei

Na claridade do dia
Faço versos para amar
Quando os termino
O vazio chega já

Nas sombras o peito é aberto
Na penumbra me transformo
Em ser quase completo

Na vida as sombras aparecem
Na face da morte
Encontro eu cá
Vida só interessa
Se há quem amar

Nas lembranças de uma vida
Todas faço já
Na beleza da covardia
Vide alma eterniza

Cabeça, áurea, branco
No limiar do espanto
O céu se abre de encanto
Das mazelas que canto
Nada mais garanto

Nestas longas rimas
De pulsar em prantos
O coração aberto afirma
Não sou poeta dos meus enganos

Versando

Cruz alta
Esplendor alado
Não esqueceis de mim o deus amado

Cada verso que faço a ti
Encontro o meu bem amado
De um dia sempre quereres sempre lembrado

Já disse que não gosto de versos rimados
Mas na vida tudo é assim
Um pouco de cada coisa
E para sempre seja louvado

Rimas rimadas ao vento

Não gosto de rimas
As rimas são manipuladoras
Congelam um instante em que o Eu
Que não é o Eu desabrocha

Rimas inúteis
Porque rimar sol com girassol
Tudo não passa de uma situação modística

Eu escrevo assim
As frases vem e ponho-as no papel
E pronto

São elas que devem bailar por si só
Não tenho intenção de forçar nada
Deixe que elas expressem-se

Rimas rimadas ao vento se vai
Coisificando a vida
A vida não é assim
Ela é dura, objetiva, franca
Rimar rimas, isso não é para mim

Olhares

Olhos longínquos, face desnuda
Aparente flexibilidade modular
Cabeça baixa, músculos distendidos
Organismo ainda vivo

Coração apertado num peito semi-aberto
Sangue e refluxo
Ossos quebrados sem estrutura interna

Mais ainda somente olhares
Olho no olho
Profundidade absoluta
Olhares
Olha-se para si mesmo
Apenas vê-se um Eu inexistente

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Primeiras poesias

As poesias que publico abaixo, foram escritas nos anos de 2004 a 2006. Retratam a fase mais difícil, a mais dolorosa, mas nem por isso a menos feliz destes quase 30 anos de existência. Eis a palavra moderna Existir, fazer-se existir, como já disse algumas vezes, estar no mundo, sem ser do mundo, eis a atração do tempo moderno, do próprio tempo.

Confidência

Sombra sombria
Recolho-me na vida
No âmago enaltecido
Encontro exílio

Sonhos inacabados
De tão acinzentados
Cabresto no cavalo
Somos todos seres alados

Com a cabeça erguida
Os olhos cerrados
O coração ferido
E alma clarificada

Na sombra me encontro
Sou um simples trovador
De certeza inalterada
Valhe-me Deus, nosso Senhor!

Fé danada

Hoje está chovendo,
Céu escuro, acinzentado,
Mas porque o dia está assim.

Hoje acordei com uma louca vontade de tomar um belo café:
que gosto de morte!

Sei lá viu, alguma coisa está para acontecer,
Mas a gente é assim nunca estamos felizes,
Sempre queremos que o dia esteja lindo,
Azul, claro, sol intenso,
Se estiver um tom mais acinzentado
Já se pega as folhas que foram bentas no Domingo de Ramos
Bota fogo, e pede-se para todos os santos que levem a chuva embora.

Etá fé danada que em tudo se dá um jeito.

Desconectado

Algo de mim desconectou-se do mundo
O mundo não é a minha realidade
Hoje se prefere viver virtualmente
Então tudo passa a ser virtual
Os amigos e amigas do Orkut
Os relacionamentos persistem, mas prefere-se a quantidade
Quanto mais pior

Na virtualidade da existência
O existir não se faz necessário
Por isso digo
Amigos virtuais
São apenas fotos na tela do computador

Revelações de uma alma

Hoje estou mal, sinto uma tristeza profunda,um vazio enorme,
as coisas que procuro esvaem pelos meus dedos
e a alma derrama toda dor vivida no hoje.

Sinto meu corpo tremer
a voz balbuciar
e o coração arder
ainda bem que estou vivo.

Poucos me entendem,
mas os poucos são meus eternos amigos
do qual cultivo como belas rosas perfumadas.

Posso não falar,
mas meu corpo fala por mim.

Posso não amar,
mas meu corpo ama por mim.

Somos seres bilaterais,
vivemos em uma duplicidade de vida
vida sacra, vida profana,
vida amor, vida desprezo.

Aquela que conseguir imperar sobre o nosso “eu”
é aquela que dirá quem somos.

domingo, 18 de outubro de 2009

Duas faces

A morte é apenas o princípio
Cada dia que passa um pouco de nós morre
O nascimento é a morte plasmada
É a revelação da verdade

Pensemos na única certeza
A nossa morte é um fato a ser consumado
Fatos dolorosos são como o cinzel
A prepotência do orgulho aniquilada

Na morte nada parece racional
As emoções são super-expostas
É necessário vivê-las dentro de si

Expor-las para agradecer
Se há morte, há vida
A morte é o renascimento para a vida

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Falando de coisas simples

Enxada em mãos
Batida a roçar
Cavuca-se a terra
Ainda não se sabe o que achar

O agricultor na labuta
Intensa sensação a se realizar
Na roça planta-se de tudo um pouco
Feijão, mandioca, até abobrinha

Na arte de trabalhar a terra
Ele de chapéu e enxada
Sol a penetrar na alva pele
Um momento de paz
 A enxada neste momento é seu guia

sábado, 10 de outubro de 2009

Voz das Geraes

Quando escuto tua voz
O meu coração abre-se
De dentro vejo tanta luz
Penetra na alma, clareia

Uma voz que mexe e reflete
Afeta os poros sensibilizados
Não há dor, diante dela somente amor
Um amor imenso, cheiro paradisíaco

Voz tão clara como os riachos de Minas
E Minas é teu som
Sonoro prazer é te ouvir
As lágrimas escorrem cachoeira abaixo
Nas pedras batem, lapidam a dureza

Uma alma se sente
Tanta ternura, tanto afeto
Nascente voz, Nascimento
Milton, uma voz, que ama cantando a Humanidade
A sua humana idade de ser cantor
Cantor, eis a Voz das Geraes

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pensamentos poéticos II

Reflexo

Sou reflexo de um tempo
O meu tempo é o Eu
Posso até tentar ser Nós
Mas é o Eu quem determina

Individual

No individualismo dos tempos modernos
Moderno é o ser que dá aos outros
Mas hoje até o dar as vezes é mal visto
No Eu a minha geração contenta em permanecer
É custozo ver os outros

Contos de fada

A Humanidade olha-se no espelho e pergunta:
Espelho, espelho meu...
Até nos contos de fada queremos possuir
A posse acontece porque o outro permitiu
Não sou de ninguém,
Estou no mundo,
Não pertenço a Ele.

Transgressão

Transgressão da poesia
Mas como fazê-la?
Há fórmulas?
Para mim não há

A poesia clássica é uma insossa
Todo poeta é um transgressor da palavra
Uma coisa é certa
Não há como transgredir o próprio Eu

Poesias curtas

Curta A

Tempo nublado
Eclipse em gozo
A seratonina despertou
O sangue verteu-se guela abaixo

Curta B

Boca maldita
Espíritos sombrios
Maremotos emocionais
Vida em caos

Curta C

O toco em frente
Eu, um perneta
Pular com perna só?
Que canseira que dá

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Deciframento

Antes nunca rios navegados
Taciturnos venturosos obstáculos
Cansados de cruzes carregadas em sol a pique

Iluminadas diante do despreparo
Às vezes entende-se um monte de coisas
Em devaneias expressões corrupiadas

Reflexos num semblante blasé
Percorrem-se pequenos pontos luminosos
Decorrendo como neve em prantos sorridente

Nada se pode ver
Em nada se quer olhar
O nada talvez seja essa a solução

Os pensamentos fogem da razão
Pretensiosamente a tentativa de controla-los é fraca
O liquidificador é ligado

Tudo passa, na verdade tudo já passou!
Aquilo que o sorvete parece doce
Amargo sempre desce

domingo, 12 de abril de 2009

Fogão de lenha

Lenha a queimar
Brasa à avermelhar
Fumaça dissipada no ar
Em poucos instantes apenas cinzas

Viver sempre é assim
Começa em brasas e termina cinza
Pelo menos das cinzas
A vida continua a se alimentar

sábado, 21 de março de 2009

Versando sobre algo

Casa de cabloco
Espeto de pau
Artefatos milenares
Roca, quase um dedo

Tirei-o a tempo
O vento saltou aos olhos
Lugares nunca antes navegados
Corruptor de versos

Singeleza, intimidade
Brancura, caos

Não há tempo a perder
Não há vida a morrer
Morre-se no agora
A alma encanta-se

No alto vejo um velório
Um cortejo funébrio
O casario velho
Uma pequena luz

Simplicidade nos versos
Versos versados em um tempo que não existe mais
Agora nada, o depois tudo
O paraíso ainda existe?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Tocando o coração

Sentimentos puros em rios abertos
Sulcos escavados por cravos pregados
No profundo oceano de ideias, paisagens obscurecidas
Em rios desaguam em límpidas emoções

Voz
Um grito
Uma nota musical
Refinamento dos pensamentos
O coração abra-se para o além

Diálogo sacro
Em verdadeiros prantos
A alma purificada
A mente ergue-se em longínquos gestos

Sensação de paz em um caos interior
Borbulhando em notas agudas
Arremessadas ao espaço
Vividas na solidão sem estar sozinho

Um mundo de coisas acontece
A vida em versos faz-se escancarada
Amanhã não sei
Mas o hoje, os sentimentos são o que são
Sem medo de libertá-los
Liberdade é uma verdade
A única desprovida de conceitos

A cabeça sente, alma é pura
Ama-se com o esplendor do calor
Mesmo em momentos de extremo frio