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Mostrando postagens de Janeiro, 2012

Distorço minha imagem

Atrás de um espelho
Vidro laminado e ondulado
Cores que permeiam a minha face
Uma boca carmim e púrpura

Não deixo que me vejam
Na ilusão de verem
Sou uma luz transparente
Em meio a desejos inconscientes

Distorço a imagem
Para que aqueles vejam que não sou
Olho adiante e percebo dores
Em um vidro com muita cor

Sensações auditivas

Imagem
Escuto tua voz numa espécie de nevoeiro
Aquele som metálico, cinza e cru
Tem algo de especial, mexe com aquelas nossas sensações primitivas
Naquela claridade quase dilatada por artérias abertas

Sinto como se fosse um som hipnótico
Entra na alma, escancarando-a num gesto quase sufocante
Faz-me lembrar de um profundo despespero
Naquela viagem entre estrelas solares

Viajo para dentro de mim quando te escuto
Um caminho quase sem volta
Aquelas bolhas que saem da minha boca
Como um peixe num rio fundo encontro-me

Melódico e anestésico
Com os ouvidos martelando este som que me consome
Caio num abismo de ideias
Te vejo em uma voz pura e nua
Como aço e gelo

Eu falo

Entro e saio
Em pele nua e úmida
Aquele movimento repetitivo

Entro e saio
No leitoso gozo
Face rubra

Entro e saio
Naquele calor em água
Meu falo

Dama da escrita Clarice Lispector

Como Macabeia descalça
Em um pensamento feminista
Arranho as entranhas das palavras
Coloco-as abertas e expostas

Ácido é o meu sangue que corre
Por aquelas veias, dilaçerando-as
Com um cigarro na mão e um ponto de interrogação entre os dedos

Não quis ser compreendida, quis apenas amar
Com aquele amor quase neurótico e belo
Na angústia de chegar ao delírio constante

Sou assim, uma apaixonada por palavras
Com aquele querer de invertê-las ao quadrado
Toque sútil e nefasto

Sou sombra e luz
Clareio ideias e encoberto-as
Naquela penumbra quase obscura

Minhas palavras são fortes
Inspiram momentos de vômito
Límpido e puro

Não dei frases soltas, sem nexo
Procure seus meambros
Sou a palavra da carne viva

Às vezes

Às vezes a gente não entendi porque é do jeito que é

Às vezes a gente não entendi porque sente do jeito que sente

Às vezes a gente não entendi porque pensa do jeito que pensa

Às vezes a gente não entendi porque ri do jeito que ri

Às vezes a gente não entendi porque sofre do jeito que sofre

Parei hoje para pensar

Parei hoje para sorrir

Parei hoje para dizer

Às vezes a gente pensa que pensa e não pensa nada

Reflexões de um dia

Quando puder estenda a mão
Faça algo, movimente-se
Deixe a roda girar
Espalhe o que de bom tem dentro de si
Contamine as pessoas com boas ações
E nunca se esqueça
Somos aquilo que fazemos aos outros

Tempo em crise

Sou poeta de um tempo em crise
Em que um programa de tv mostra bizarrices
E no delírio de uma gente sem noção
Adora o prestígio que o trabalho simples

Sou poeta de um tempo em crise
Que sentimentos não mais importam
O falatório dos nossos egos
Encobriram-se de cinzas expressões de afeto

Sou poeta de um tempo em crise
Que escrever poesia é quase uma histeria
Só que invertida
De versos sem uma prosa definida

Sou poeta de um tempo em crise
Que mesmo com tais dificuldades
Ainda tem gente com cabeça pensante
Não aceita as formas definitivas
E luta para ser ouvida

Sou poeta de um tempo em crise
Que o verdadeiro é escasso
O falso é exaltado
Como se fosse uma verdade de fato

Sou poeta de um tempo de crise
Que acredita na capacidade humana
De reinventar a própria história
Naquele olhar de brilho inconfundível
Perpassa o finito e toca com os dedos

Sou poeta de um tempo em crise
Que não tem medo de dizer o que pensa
Mesmo se errado estiver
Para e reflete
Não sou dono da verdade
Dei-me uma linha…

Novo mundo no velho mundo

Um mundo onde não houvesse guerras
Em que os povos se abraçassem sem facas
Os dentes a mostra talhadas como lâminas
Um mundo utópico como de Alice

Não, não há
Mas ainda que haja esperança
Daquelas dos nossos grandes sonhos
Brilham em nossas consciências e ações

Num velho mundo que se reveste novo
Só os mais bobos não percebem
As leis continuam as mesmas
Oprimindo e desejando oprimir

Aprendi que a gente age no silêncio
Sem precisar fazer estardalhaço
O que a mão esquerda fizer a direita não precisa saber
E assim homens de bem agem
Como formigas trabalhadoras e que nunca se cansam

Essa é a grande experiência
Individual e coletiva
Num mundo novo que se abre pela frente
Ser além do Eu é única alternativa