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Mostrando postagens de Maio, 2012

Ode a Carlos Drummond de Andrade

Imaginaste uma escola onde todos pensassem iguais
Um mundo onde todos pensassem iguais
A arte onde tudo fosse igual
Que tedioso seria!
A escola castra o aluno naquilo que ele tem de mais puro
o pensamento
Não façamos de nossas crianças passarinhos presos na gaiola
Deixemos que elas voem quando assim quiserem
A insubordinação mental de Carlos foi um alívio para ele
Faltou-me na infância o prazer e a ousadia de questionar
Hoje não falta.

Girando a roda

Em recolhimento da face
O aprofundar se faz necessário
Aquela roda que gira
Moinho d'água
O sol resplandescente dentro de si
Toma conta dos pensamentos
Há caminho de descobertas
Árvore da vida
E o sete na porta bate
Deixando o que não mais importa
Segue uma nova história

Em meio a guerra

Nos idos anos 40
Bombardeios na Itália
Moças e rapazes afungentados
Correndo das bombas
Escondendo-se dos escombros
Um pequeno grupo ali se ajuntou
Com o evangelho na mão
Pediram proteção e saíram atrás dos desamparados
Cada face era uma oportunidade
Para amar o semelhante
Não se importando rico ou pobre
Eram todos iguais em dignidade
Diante de várias experiências
Surge uma nova atmosfera
Dessas jovens que amaram a Deus
Um mundo de coisas aconteceu
E veio uma nova identidade
a Unidade
Como uma marca no peito
Este ideal de vida se espalhou
Chegou ao Brasil
Aflorou, deu e dá frutos
E como é bom dizer que fiz parte dessa história

Garimpeiro

Hoje em dia o zircônio vale mais
A peleja na mina diamante é raro
Já tentaram de tudo
Lixa o zircônio pra ver se vira diamante
Garimpeiro que é bom conta-se nos dedos
Estou com Coralina
Na labuta da vida enchê-la de meandros
Bater enxada, suar a camisa
Que cada palavra que eu consiga escrever
Seja assim
Doida, minha, diamante em estado bruto

Palavra e luz

Quando se enche de palavras soltas
Notas sem valor
Vaga-se sem destino

Cada ser tem seu modo de ver
Mesmo que sejam transfiguradas
Palavras não podem ser vagas


Olhe para tua consciência de artista
E deixe bem claro o porquê está aqui
Não se submeta a uma vontade imperiosa


Os artistas são livres
Podemos dizer as coisas mais vis
Ou as coisas mais libertadoras


A palavra abre
Fecha
Encerra
E traz luz

Vírgulas

Lâmina que transpassa
Corta palavras
Dividindo-as em pontes
Agora, livre de propósitos.

As interrogações usadas para questionar
Transformam-se em exclamações
Soltando os pontos finais
Sem aspas e travessões

Vírgulas que dão apenas pausas
Respiros em processo contínuo
Mudando a linha para compasso, quem sabe

Giros, giros, que dão base ao triângulo
De cume agudo
Na perpendicular

Descobri na literatura

Descobri na literatura
Que Adélia Prado pode ser meu céu
Carlos Drummond de Andrade a minha introspecção
a volta ao meu castelo interior
E que Cora Coralina, meu chão, de terra batida
E a Senhorinha de cabelos brancos
Essa fica guardada pois não é o momento
Procurei (in)conscientemente por tradição
Encontrei com esses três na literatura e a outra na vida
Um ciclo se fecha, como numa mandala, como numa via crucis
Só entende quem vive a experiência

Pausa

Sábio foi o homem
Que da pedra fez seu lápis
Do minério sua tinta
E da vida sua Arte

Fios

Fios retos
Fios encaracolados
Fios frisados
Só fios
Aquele vento que arma
Desconstroi e volta
Fios duplos
Fios unidos
Fios sem ponta
Fios que fazem moda

Bailarina escarlate

Teu revoar como um passarinho
Com asas escarlate
Aquele giro ao céu azul
Lindo de olhar

Voe bailarina
Naquele gesto teu
Nas pontas dos pés
E o vento a ti levar

A vida é doce

Meu dengo gostoso
Que me faz te amar
Braços dados envoltos
Quero-te acalentar

Têm tantas coisas menino
Tu nunca saberás
A vida é um doce
E é bom se lambuzar

Extâse com McQueen

Estamos todos cegos
Somos estranhos uns dos outros
Aos exageros superexpostos
Camadas e camadas de tecidos
Textura e formas dão a sensação de vazios
Aquele sussuro que te acompanha
Deixa-te paralizado
Quase um tom esquizofrênico
Frio que corrompe os sentidos
Escute o sino palpitando e extâse
Quase um gozo auditivo


Amor brega

Eu me esqueço dos teus beijos
Nas ondas dos teus braços
Envolvo-me naquele nosso desejo
Arranho tua face

Mostro o meu dengo doce
Nas curvas corro a ti dizer
Que amor mais brega
Toma jeito mulher

Mandalantras

Círculos
Circulares
Que circulam
Vidas passadas
Reencarnação
Retornam ao fim do ponto
A tênue linha mal feita
Puxa o nó
Desfeita
Círculos
Circulares
Que circulam
Vidas Passadas
Reencarnação
Retornam ao fim do ponto
A tênue linha mal feita
Puxa o nó
Refeita

Na cidade de Riju

Adormeceste
Fauno veio a teu encontro
Levou-o a cidade de Riju
Lá onde não há bons e maus
Os rijuensis são seres com mãos de martelo
Vestem-se de togas brancas
Há também os religares que detêm a sabedoria
Corporificam os sete alados
Como é estranho aquele lugar

Pausa

Aquela luz o cega
Entorpece a mente
E ficas sem saber se as criaturas são pacíficas
Olhaste para trás e veio a escuridão
Fauno pede para que entre na toca de Utá
As árvores da desolação chegam
Penetram naquele solo úmido e pedregoso
Fauno arranca-o e o eleva
Acorda, acorda

Pezada

A semente não pode crescer
Naquele vaso que a abriga
Se queres matá-la
Dê pezada

A realidade das ruas
Aonde caminham meninas prositutas
Com sua dignidade ao meio-fio
Rastejam e sobrevivem

Passarela

Aquele sintilar de pernas

                                                                Balançando freneticamente

Cruzam-se apressadas

                                                                 Aquele carão e pausa


Desfile não é tudo igual

                                                                 Modelos com seus olhares plastificados


Seriam bonequinhas de luxo?                  

                                                                  Não são


Na moda tem muita arte

                                                                   A arte de elevar o belo


Ao seu estado mais genuíno

                                                                   Olha, olha direito


Tem poesia em um desfile

O corredor roxo

Entramos naquele prédio
Em uma das ruelas de Paris Era alto com janelas amplas Procurávamos um assassino

No corredor roxo fomos ao quarto 45 Não vimos nada O assassino em série havia se escondido Onde poderia estar?

Corte a cena e veja Há apenas um amplo corredor Com tapetes no chão E nas paredes pastilhas

Corta de novo a cena Entraste dentro de uma fotografia de Torquato Não há nada Além daquela luz roxa que te inspira

Sempre-vivas

A haste de um capinzal
Em um campo rupestre
Apanhaste as sempre-vivas
Botões brancos em palha
Tuas mãos cansadas
Mostram os nervos palpitando
Aquele fardo cheio
Conte-nos como é nascer viva sempre
Naqueles campos abertos
Pontos salpicados de delicadeza
Eu e você sentados olhando
Perdendo-se ao vento
E se achando



P.S: As sempre-vivas são plantas das serras de Minas Gerais em que as flores nunca secam mesmo depois de colhidas.

Tulipas e Paris

Uma praça em Paris
Tulipas rosas
Aquela estátua em forma de anjo

Um ar bucólico
Inspirando paz e harmonia
As cores chamam a atenção

Por este trançamento te vejo no banco
Com um olhar que se olha mais profundo
A contemplação do que é belo
Deixa-nos mais próximos da eternidade

Se todas as praças das cidades
Aquelas que se encontram na linha abaixo do Equador
Tivessem seu encanto e beleza
Provocariam mudanças no estado de alma

Voltemos a nossa realidade
Praças mal conservadas e cuidadas
Cinzas cor de prata
Com aqueles torrões jogados ao chão

Uma cena sem grandes precedentes
Fato típico de qualquer cidade
Prefira encher os olhos de cores coloridas
Mas não esqueçamos que nem tudo são cores

Tentativas

A gente passa por aqui
Deixa um pouco acolá
Entra sem pensar
É expulso
Bate na porta
Espera
Se não consegue
Tenta de novo
Prossegue
Vai em frente
Continua sem parar
Insiste até que um dia
Vai dar certo