sexta-feira, 11 de março de 2016

A mulher da marmita e dona da vida

Era uma entregadora de marmita. Vivia pelas ruas da cidade, no sol escaldante com suas pernas de fora. Sempre com aquele short jeans e camiseta branca. Era afeita da mais pura sensualidade feminina, com o bico dos seios sempre amostra. Os homens a admiravam e as mulheres a odiavam. Uma loira de pouco mais de 25 anos, com aparência de 30. Vendia marmita para cuidar de Augusto, que nascerá menina, mas tinha o comportamento e a identidade de menino. 
Era a grande luta, entender o que se passava na cabeça do filho que tanto ela amava. No dia a dia, era uma mulher comum, trabalhava e levava a vida numa boa e a noite se transformava na loira do Bonfim. A vida de dupla jornada a cansava, queria largar o período noturno, mas tinha contas para pagar e um filho para criar. Era só. 
Como a maioria das mulheres queria apenas viver bem. Homens não faltavam mesmo em tempos de vacas magras. Todos os dias a avistava. Queria entender como era tua vida, marcada por sofrimentos e dores, mas com um sorriso no rosto e amor pela vida a entregadora de marmita e mulher de vida nada fácil contara-me coisas que estas linhas se fazem desnecessárias. Já apanhou de homem, já bateu em homem, mãos calejadas. E muita vontade de viver.
Uma vez, em um destes encontros noturnos, um homem, tentou sodomizá-la; era daqueles malucos que encontramos nos bares da vida. Ela não aceitou e a discussão foi generalizada, e por pouco ela não saiu ferida. Em poucas palavras era assim a vida desta mulher. Cheia de percalços.
Voltando a sua relação com teu filho, ela era mãe dedicada e muito paciente. Apesar de não saber lidar com a transgeneridade da criança, era uma mulher de mente aberta que vivia seu tempo sem preconceitos e com tolerância. Queria o bem do filho, mesmo sem saber como fazê-lo feliz. Talvez encontrou motivos para respeitá-lo na sua individualidade e isso já o fazia feliz.
Augusto estudava em uma unidade municipal de educação infantil e tinha problemas com a professora que não entendia bem o comportamento dele. Tanto que vivia o levando ao banheiro feminino, coisa inconcebível na cabeça de Augusto. Já que era um menino de alma.
Tanto a mãe e o menino eram acompanhados por psicólogos que ajudavam a amenizar a vida sofrida de ambos. E isso não parava por aí. Os coleguinhas zombavam dele, o que inferiorizava ainda mais. Mas ele não se abatia, era um menino vivo, sabia contornar os percalços da vida.
Ambos viviam em um sobrado, casa simples. Tudo organizado e limpo. Era uma mulher que sabia também cuidar de casa. Tinha poucos utensílios domésticos, mas todos em perfeito estado de uso. Caprichosa com a casa, vivia comprando badulaques no Mercado Central para enfeitá-la. Tinha um gosto brega. Para música então nem se fala, era daquelas das antigas, Nelson Gonçalves, Inezita Barroso, entre outros.
Mulher da vida, companheira na vida, vivia seus dias complacentemente; sem grandes desejos, vivia o hoje, o agora, não dava para viver sonhando. Apesar dos inúmeros sonhos que tinha. Era mulher de fibra, de personalidade bem marcada, mulher bem vivida, de olhares fecundos.

 
  

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